domingo, 31 de maio de 2009

da fechadura ...

Ainda sou o menino, o anjo pornográfico do Nelson Rodrigues...
e me pego vendo pelo buraco da fechadura o mundo lá fora.
É grande, bem grande. Vejo gente passando a todo instante.

E de vez em quando pára alguém. Olha de volta pela fechadura,
e se vai... e tem quem não leve nada quando vai embora.
Mas tem gente que abre a porta... pega um narciso meu e se vai.

Eu gosto. Levam uma coisa minha, cativei-os... e cuidaria deles.
E por mais que a flor seja jogada fora... o perfume fica nas mãos.
Guardam o que não pode ser esquecido... sem saber, é meu.

E há quem entre porta a dentro. Instala-se e senta comigo.
E olha junto comigo o mundo... e segura as flores no colo.
Desses gosto ainda mais. Percebem que eu não sou só um menino.
(ou seriam eles meninos também?)

E, pra não deixar ninguém de fora, tem quem me pegue pelas mãos...
me convide a ver o mundo sem o banquinho em que me sento.
Eu não levo as flores comigo. A pessoa me leva. Me cativou e cuida de mim.

Paraísos perfeitos. Naturalmente não sento no banquinho depois disso.
Conheci o grandioso mundo colorido, mas volto pros narcisos.
Tem sentimentos... e quem sentou comigo. Estará sempre ali,

comigo no banco. Mas toda vez que eu vou ver o mundo, os levo...
Pra saberem de onde eu colhi minhas flores amarelas e brancas...
Não sofro por ninguém. As vezes, gosto do banquinho solitário.

Mas é só quando o mundo chove e fica cinza. Só assim.

domingo, 3 de maio de 2009

Foda-se.

Já não caio mais. Não mais.
As minhas surpresas, quase sempre,
não tão boas... mas, viver não é preciso.
É preciso escrever. E não surpreender-se.

É preciso sentir tons e formas,
sentir suavemente a mão da arte,
como uma nuvem macia que pode,
e vai, envolver seus sentidos.

É preciso chorar, chorar sempre.
Quando acaba o pavio ou oscila a chama.
Quando uma chuva, santa chuva,
desaba sua casa de veraneio tão perfeita.

É preciso esperar as chuvas e as chamas,
ou a falta delas, quando não vierem.
Mas o pavio há de renovar-se, e a chuva,
ah, a chuva, sempre há de cair, aqui ou lá.

Mas me cansa esse desabar da chuva, sempre,
a oscilação da vela, ora forte ora quase apagando.
E o que se há de fazer? Chorar e não se surpreender.
A chuva há de passar, a vela há de permanecer acesa.

quarta-feira, 18 de março de 2009

e se eu me perder ?

Por mais que isso te magoe,
eu não perco a poesia...
Não perco o poema na folha,
nem a pose de fortaleza.

A pose imortal de 'porra-loca',
em mim, inconfundível...
E outra postura combina?
Em mim, roupa que cai bem.

Só interpreto o papel que gosto,
como uma grande atriz...
Mas a minha vida não é peça,
então, só não sofro.

Não largo os meus lugares,
minhas esquinas de sempre...
Minhas correções diárias,
de humor, de dor, de alegrias.

Talvez teria sido melhor,
se eu não estivesse tão perto.
Mas não me agradaria longe.
Não me arrependo. Passado.
(metódica: 5x4)

terça-feira, 17 de março de 2009

e falta ...

Talvez eu seja exatamente isso,
uma falta de horizonte, de tela...
Um futuro sem direção,
espelho sem promessas.

Uma morte assim, bem perto.
A poesia esdruxula, perda de tempo.
Um riso amarelo, sem graça, torto...
Ah, lamentações e é só.

Quero e gosto de escrever sobre.
Mesmo que os olhos não sigam certo,
porque as lágrimas o embaçam...
Rio d'água sem parada, sem final.

Mas que calma, músicas e sons...
Queria eu ser assim, sinfonia.
Harmoniosa, cheia de nuances.
Um charme atencioso e natural.

Mas não, faço tudo errado sempre.
Caio um pouco em cada esquina,
bato em todas as possíveis quinas.
Destruo o que eu nem tenho, reputação.
(5x4)